Obras com assinatura feminina: as mulheres que lideram a transformação urbana de Niterói
Data da Postagem: 17/03/2026 Última Atualização: 23/03/2026
O cenário de capacetes, botas e plantas de engenharia nos canteiros de obras de Niterói ganhou um novo perfil. Quem percorre as intervenções urbanas mais importantes da cidade hoje encontra, na linha de frente, vozes femininas ditando o ritmo da produção. Se historicamente a construção civil foi um reduto masculino, em Niterói a realidade é reescrita por profissionais que lideram desde a infraestrutura básica até projetos de tecnologia sustentável.
A Empresa de Infraestrutura e Obras de Niterói (ION) conta atualmente com 123 mulheres em seu quadro de colaboradores. Elas ocupam 50% dos cargos de liderança nas diretorias responsáveis pelas obras e também atuam em funções de fiscalização em diversos projetos em andamento pela cidade, reforçando o papel essencial da presença feminina na gestão e execução das obras públicas.
No Engenho do Mato, palco de uma das maiores obras de drenagem e pavimentação da história da Região Oceânica, a engenheira Heloise Motta exerce uma liderança que alia rigor técnico à formação de novas gerações. Ao comandar frentes de trabalho pesadas, ela supervisiona duas estagiárias em cada medição e tomada de decisão, focando não apenas na execução do projeto, mas na postura necessária para gerir um ambiente tradicionalmente masculino.
“Hoje eu trabalho com duas estagiárias e jovens aprendizes. Tento passar para elas que conseguimos ganhar o respeito com a nossa postura e o nosso conhecimento. É preciso saber desviar de certos comportamentos, porque existe uma linha muito tênue entre ser simpática e perder o respeito. Converso muito com elas para que mantenham esse limite”, explica Heloise. Uma das jovens que absorve esse aprendizado diário é Thayná Araújo. Estudante de Engenharia Civil, ela traz de casa a familiaridade com o canteiro, mas é na prática da obra pública que transforma a curiosidade da infância em domínio técnico.
“Escolhi engenharia porque meu pai e meus tios são pedreiros. Desde nova via eles comentando sobre o trabalho e ficava curiosa. Acabei indo para essa área por curiosidade, mas hoje, com a experiência que tenho no estágio, posso conversar com eles, tirar dúvidas ou até ensinar”, orgulha-se a estudante.
No Centro, a obra do Parque Olímpico da Concha Acústica também é liderada por uma mulher. A arquiteta Yara Colombini coordena a execução técnica do projeto, que concilia infraestrutura esportiva, normas olímpicas e as diretrizes urbanísticas de Niterói. No entanto, o rigor nos cálculos e prazos divide espaço com o desafio diário de validar sua autoridade. “Na área da arquitetura e, principalmente, na construção civil de grandes obras, a mulher enfrenta dificuldades. Temos que chegar impondo respeito e profissionalismo para que, em um meio tão masculino, consigamos ser ouvidas”, pontua a arquiteta.
O Parque Solar do Boa Vista, marco da tecnologia renovável no município, é coordenado por Vanessa Rodrigues. Engenheira ambiental por formação, ela supervisiona as equipes técnicas unindo o olhar sustentável à prática direta do canteiro — uma transição que começou no estágio e se consolidou como trajetória de carreira. “Sou formada em engenharia ambiental e vim parar na engenharia civil em um dos meus estágios. Continuei na empresa e, a partir daí, passei a acompanhar as obras civis. Acho que, por ser mulher, existe um pouco mais de sensibilidade, mas nada que impeça de cumprir todas as obrigações com competência”, relata Vanessa.
O protagonismo feminino observado em Niterói reflete uma mudança estrutural no país. Dados recentes do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) apontam um crescimento de 36% nos registros de mulheres nos últimos cinco anos. No Rio de Janeiro, o cenário é de consolidação: elas já representam 20,2% dos mais de 118 mil profissionais registrados no Crea-RJ.
Imagens: Leonardo Simplício
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